A verdade é que eu existo, sou normal e tenho uma vida - COLAB 01

~ Serei breve ~ Depois de um hiato com as postagens, resolvi aparecer com uma categoria nova. Esse texto pertence ao COLAB, categoria em que convido amigos a escrever para meu blog em parceria. Mais explicações em um próximo post <3


Por: Allan Penteado

Quando a Fabíola me convidou para escrever sobre a temática LGBT eu não sabia muito bem do que falar, afinal esse assunto é muito amplo e só quem vive mesmo como um LGBT consegue falar especificamente como é difícil lidar com pessoas e uma sociedade que não te reconhece com normalidade, mas eu já fui assim também, acreditava no que ouvia e era induzido a pensar de acordo com o que me falavam.
Assim que me assumi gay para minha família meu pai fez todo um discurso, um longo discurso, sobre sua transformação depois de se tornar evangélico, e como a vida dele foi turbulenta na adolescência e juventude, ele me contou algumas coisas comportamentais que ele fazia que foram transformadas após conhecer o amor de Jesus. No final de cada feito ele completava que achava normal tudo o que fazia, pois as pessoas com quem ele andava também considerava aquelas coisas normais. Como eu já esperava, ele me disse que eu teria chance de mudar meu "comportamento" homossexual, e que talvez isso era coisa da minha cabeça, porque as pessoas achavam isso normal.

Eu cresci ouvindo que aquilo não era normal, eu fui alvo de chacotas minha vida inteira porque sempre fui diferente, sofri com bullying e com uma tristeza muito grande por não ter amigos e não aceitar meus próprios sentimentos, ouvia que gay era a pior raça e que era melhor ter um filho ladrão que gay, afinal pelo menos "homem" "come" mulher, eu entendia que a pessoa pode escolher não se relacionar com alguém do mesmo sexo, pois essa escolha levaria ela direto para o inferno, afinal é falta de fé não acreditar que Jesus pode te transformar. Eu estive cercado, por mais de 20 anos, de pessoas que me falavam que aquilo nunca seria normal, e eu realmente acreditava não ser.

Aquele desejo por meninos aumentava, eu acreditava que um dia encontraria uma mulher e mudaria todo esse sentimento, ou que Jesus me mudaria conforme eu me dedicasse nas atividades da igreja, depois de um tempo minhas orações passaram de "Jesus me muda", para "Jesus me ajuda a não ser assim" e por fim "Jesus eu sei que você me fez assim, então me dê forças para suportar a barra".

Eu não quero que alguém se sensibilize com esse relato, porque ele é mais um dentre tantos outros, hoje as coisas são melhores, meus pais continuam me amando e a vida está seguindo seu rumo, o foco principal do texto é: como eu desconstruí meus próprios preconceitos sobre mim.

Muita gente pode não acreditar, mas eu nasci gay. Quando paro para lembrar da minha infância eu tenho acesso a memórias em que eu não me identificava como hetero, que eu admirava várias figuras masculinas, e nunca consegui sentir desejo pelo corpo feminino. Enquanto os meninos da escola se interessavam pelas bundas das meninas eu não sentia o mínimo de estímulo. A minha homossexualidade sempre esteve presente em minha vida, e eu sempre a neguei.

Comportamentos podem ser de fato mudados, mas uma sexualidade não pode. Eu tentei. Eu pensava que era uma fase e que isso mudaria mas nunca foi, eu enxergava as pessoas da mesma forma que alguém ás vezes me enxerga. Conheço os dois lados. Já deixei de almoçar com um menino gay para não ser confundido como um gay, que era algo muito pejorativo em minha mente.

Depois que comecei a viver minha sexualidade como ela é as coisas melhoraram demais, não consigo me ver escondendo-me de mim e dos outros, mas também passei a enfrentar outros novos desafios, como conseguir ser enxergado como alguém normal, como sentir medo de andar na rua e apanhar, de ter medo de expor meus sentimentos em alguns lugares públicos.

Para me aceitar primeiro eu tive que entender o que é sexualidade, como as pessoas não héteros vivem e como as pessoas sabem que não são héteros, aí entendi a diferença entre gênero, papel de gênero e sexualidade como abaixo:






Tudo é um processo, essas coisas me detonaram muito quando criança e adolescente porque eu não sabia lidar com isso tudo, de um lado me diziam que eu não podia ser quem eu era e de outro lado eu não conseguia ser quem eles queriam que fossem, isso me tirou o sono muitas vezes e hoje pouca coisa me abala, vejo a vida como algo mais leve, que a gente vai passar por problemas, afinal o tempo não espera a gente e ele passa, como passa, portanto tenho muito menos para cobrar de mim mesmo e muito mais para viver, o autoconhecimento foi algo fundamental e minha transformação que foi acontecendo aos poucos dependeram muito do meu olhar interior, já que tentar agradar os outros é viver sem propósito e viver sem ter uma vida, propriamente dizendo.


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